A recepção das idéias de Darwin e Wallace foi bem heterogênea. Primeiramente precisamos identificar quais eram suas idéias: a evolução e a seleção natural. A evolução foi muito bem aceita entre os cientistas, ou seja, as espécies não eram criadas separadamente e não eram imutáveis. Contudo, a evolução não foi bem recebida pelos religiosos. Para defendê-los de seus ataques, Darwin teve a ajuda de um imporante amigo, Thomas Henry Huxley (1825-1895).
Nessa época, os anatomistas mais importantes do mundo estavam na Alemanha. Carl Gegenbauer (1826-1903) e Ernst Haeckel (1834-1919) reorientaram seus trabalhos na busca das relações evolutivas entre os grupos de animais em que eles trabalhavam.
Contudo, é importante ressaltar que muito biólogos não entenderam a evolução de acordo com o que Darwin preconizava, achando que a evolução era linear e progressiva.
Já a seleção natural foi imediatamente rejeitada pela comunidade científica por muitas razões. A principal delas era a falta de uma boa teoria da hereditariedade. Na verdade, naquela época havia várias teorias para explicar a hereditariedade e Darwin optou por escoher uma delas. O problema é que com essa teoria não seria possível a ação da seleção natural. Além disso, outras objeções a aceitação da seleção natural era o papel da aleatoriedade na evolução e a existência de estruturas não vantajosas aos organismos, como por exemplo a proto-asa de uma ave em desenvolvimento.
Os biólogos aceitavam a teoria da variação direcionada, em que a prole difere dos seus pais numa determinada direção. A teoria da herança de Lamarck foi a teoria mais popular da variação direcionada, pois segundo ele, a prole tendia a diferir de seus pais na direção das características adquiridas por eles (seus pais).
Outra coisa que é importante ser mencionada é que Darwin aceitava a herança dos caracteres adquiridos, tanto que ele a incorporou na teoria de Pângenese. Foi apenas em 1880 que um biólogo alemão, August Weissmann (1834-1914), mostrou que caracteres adquiridos não eram herdados pela prole. E como ele fez isso? Simples. Ele ficava cortando o rabo de ratos por várias gerações e observou que a prole sempre continuava a nescer com rabo.
Muitos cientistas ficavam discutindo se a evolução se daria realmente por seleção natural, ou por outro mecanismo, ou por vários outros mecanismos.
Uma grande reviravolta nessa história toda aconteceu em 1900, quando o trabalho de Gregor Johann Mendel (1822-1884) foi redescoberto por Carl Franz Joseph Erich Correns (1864-1933), Erich Tschermak von Seysseneg (1871-1862) e Hugo Marie de Vries (1848-1935). Nas primeiras 2 décadas do século 20, os primeiros mendelistas como Hugo de Vries e William Bateson (1861-1926) foram contra a teoria da seleção natural de Darwin. Eles sugeriam que a evolução se dava por grandes saltos, as chamadas macromutações. Uma macromutação é uma mudança grande e geneticamente herdável entre pais e prole.
Na verdade, o próprio mendelismo não foi amplamente aceito nessa época. Os principais opositores do medelismo eram os biometristas, que tinham em Karl Pearson (1857-1936) sua principal figura. Os biometristas estudavam não as grandes, mas as pequenas diferenças entre os organismos e desenvolviam técnicas estatísticas para descrever como a distribuição das frequências de características mensuráveis (como altura, por exemplo) passavam de geração para geração.
Alguns biometristas eram inclusive mais simpáticos ao darwinismo do que ao mendelismo.
Apesar da oposição dos biometristas, grande parte da comunidade científica estava pesquisando o mendelismo. Inclusive, alguns deles estavam interessados em conciliá-lo com a Biometria. E foi em 1918 que Ronald Aylmer Fisher (1890-1962) demonstrou que todos os resultados dos biometristas podiam ser derivados dos princípios mendelianos.
Agora, o próximo passo era mostrar que a seleção natural podia operar com o mendelismo. E isso foi feito magnificamente e matematicamente for 3 grandes cientistas, cujos nomes merecem ser lembrados por todos amantes da evolução: Ronald Fisher, John Burdon Sanderson Haldane (1892-1964) e Sewall Wright (1889-1988). Eles foram os pais do Neodarwinismo, também chamado de Teoria Sintética da Evolução ou Síntese Moderna, ou seja, a união do darwinismo com o mendelismo.
A velha disputa entre Darwin e Mendel chegava ao fim. O que faltou por cerca de meio século na teoria da seleção natural tinha agora uma sólida base numa bem testada teoria da hereditariedade, o mendelismo.
Pode-se dizer também que Fisher, Haldane e Wright também foram os pais da Genética de Populações. Os trabalhos clássicos sobre a teoria da genética de populações mostraram que a seleção natural podia trabalhar com os tipos de variação observados em populações naturais e as leis de herança mendeliana. Ou seja, nenhum outro processo era necessário, nem a herança dos caracteres adquiridos, nem a variação direta e nem as macromutações.
Depois do neodarwinismo um novo campo de estudos surgiu na Biologia: a Genética Evolutiva, que começou praticamente com Theodosius Hryhorovych Dobzhansky (1900-1975) estudando populações naturais de Drosophila.
Depois da genética de populações o neodarwnismo se espalhou para outras áreas da biologia evolutiva. A especiação foi um exemplo. Antes do neodarwinismo ela era explicada por macromutação ou herança dos caracteres adquiridos. O trabalho clássico que abordou esse assunto foi "Sistemática e Origem das Espécies" de Ernst Mayr (1904-2005). Para Mayr, o conceito de espécies tinha que estar mais relacionada com a genética de populações do que com o conceito tipológico, pois a idéia de um "tipo" para uma espécie não tem sentido em um conjunto gênico contendo muitos genótipos.
A genética de populações definiu os membros de uma espécie através da habilidade deles em cruzarem e não pela semelhança morfológica em relação a um "tipo". O neodarwinismo estava agora também na sistemática.
Na década de 1930 os paleontologistas ainda achavam que a evolução dos fósseis era explicada por processos ortogenéticos, que seria uma tendência herdável e inexplicável de uma espécie evoluir para uma certa direção. Foi em 1944 que o paleontologista George Gaylord Simpson (1902-1984) trouxe o darwinismo para a paleontologia.
Todos os grandes nomes do neodarwinismo se reuniram em 1947 para um simpósio em Princeton. Esse evento é considerado simbolicamente como o momento em que o neodarwinismo se espalhara por toda a Biologia.
Bom pessoal, espero que vocês tenham curtido um pouco dessa viagem. Nosso próximo assunto será sobre as evidências da evolução. Não percam!
Muito legal ver como o Neodarwinismo foi ganhando espaço dentro da Biologia! Dobhzansky esteve no Brasil a primeira vez em 1943 e vários geneticistas brasileiros tiveram o pai do Neodarwinismo como mentor. Não é demais? Para quem tiver curiosidade de saber sobre a estada dele no Brasil, vale a pena ler o artigo: O programa brasileiro de genética evolucionária de populações de Teodozhious Dobhzansky, escrito por Thomas F. Glick. Foi publicado em 2008 na Revista Brasileira de História, 28 (56). Está disponível online no Scielo.
ResponderExcluir